Para repensar a escola

Renata Meirelles: “Brincar é a própria vida se expressando”

Coordenadora do Território do Brincar, educadora e cineasta pede mais espaço (e tempo) para a brincadeira livre na infância

Renata Meirelles pesquisa sobre brincadeiras infantis há mais de 20 anos. Foto: Roberto Setton/Nova Escola

Em um país com as dimensões do Brasil, quais serão as semelhanças e as diferenças no brincar de crianças de distintas regiões? Há 22 anos, Renata Meirelles viaja por grandes metrópoles, comunidades rurais, indígenas e quilombolas, sertão e litoral, em busca de respostas a essa pergunta. Desde 2000, a educadora paulistana, formada em Educação Física, documenta, ao lado do marido, o cineasta David Reeks, e, mais recentemente, também em companhia dos filhos, os modos tradicionais de brincar. Assim nasceu o projeto Território do Brincar, que engloba produções como o documentário homônimo de 2015, além de livros, séries infantis e artigos. Em todos, explora a sensibilidade e a potência do brincar para a criança. Em São Paulo, a pesquisadora conversou com NOVA ESCOLA sobre a importância das brincadeiras livres para a aprendizagem.

NOVA ESCOLA: Como você define o brincar?

Renata Meirelles: A brincadeira deve ser um conceito aberto. O brincar é o mecanismo que permite conectar-se com o que há de vivo dentro de si, dos outros e dos objetos. O brincar não pode ter um fim: ele é a própria vida se expressando. E essa força de expressão está muito ligada na referência de uma busca de autonomia de quem eu sou e do que posso e consigo. No entanto, vivemos em um mundo onde se valoriza o que é quantificável. E o brincar não se mede, não se avalia se aquela é ou não uma boa brincadeira. Qualquer brincar que não seja espontânea deixa de ser uma brincadeira para se tornar uma atividade.

Qual é a importância do brincar para a aprendizagem?

A aprendizagem está longe de ser apenas o acúmulo de conhecimentos ou de conceitos. O aprendizado que traz o conhecimento como um fim é exatamente o oposto do que as crianças fazem no brincar espontâneo. O brincar livre é onde a criança vai explorar, ver o mundo, criar conexões e aprender a se frustrar. E para isso ocorrer é necessário tempo. Não adianta reservar 10 ou 15 minutos. No brincar, aprende-se a aprender e a se relacionar com a vida. A brincadeira é cheia de angústia, de dor, não é só idílica. Ela é dura, agoniante, como precisa ser. A brincadeira traz fortemente a alegria, mas não brincamos só para ser felizes, mas também para entender as dores da vida. Na Educação Infantil, as crianças precisam ter 100% do seu corpo brincando. Sinto que os educadores hoje têm muita abertura para isso. E a BNCC [Base Nacional Comum Curricular] deixa claro: o brincar é uma linguagem viva que não precisa chegar a objetivos fins. Isso já está discutido hoje. É um avanço. E representa uma liberdade para a gente. A criança, por excelência, é um poeta. Ela pode brincar com a palavra. Mas a Base não traz a necessidade da alfabetização na Educação Infantil.

Jogar videogame ou divertir-se com games no celular é brincar?

O que há de imprevisível nas tecnologias ou telas? As regras já estão definidas, o caminho é concreto. Onde há a interação, a busca de autonomia e a percepção sensorial? Não penso que devemos implodir a tecnologia, mas não vejo benefícios para a Educação Infantil. Nesta etapa, onde se fazem conexões via corpo e relações corporais, a tecnologia é extremamente restritiva. Não entendo como um benefício. Hoje, o uso da tecnologia para a criança pequena está muito mais ligada a uma necessidade do adulto do que da criança.

"Não abrir espaço para que as crianças possam brincar com diferentes faixas etárias é limitar e segregar o que é a referência da diversidade."

Foto: Roberto Setton/Nova Escola

O que você diria para um educador que quer trazer o brincar livre para os alunos?

Acredite no potencial do brincar e dê tempo para as crianças. Deixe elas irem, mas não as abandone. Acompanhe, mas perceba com a criança o que é o não planejamento e o que isso cria nos pequenos: quando você não planeja, o que eles fazem? Não precisa necessariamente brincar junto o tempo todo. Ganha-se mais assumindo uma posição de educador-pesquisador, observando ativamente a criança na sua integridade do brincar.

O que aproxima as brincadeiras no Brasil?

Fico encantada ao observar as similaridades nas brincadeiras em realidades diferentes. O contexto é diverso, mas a essência é muito parecida. Brincar de casinha, por exemplo, é uma brincadeira que existe de Norte a Sul.  Ao mesmo tempo, brincar com armas é uma brincadeira unânime em várias realidades. Mas a arma como um processo heroico, que potencializa a luz e a sombra, que constrói heróis, mais do que destrói os inimigos. Por isso, não posso negar que há uma conexão muito forte que une as crianças no brincar, a brincadeira é uma linguagem universal.

Como o brincar pode ensinar a viver em comunidade?

O contexto urbano é completamente fragmentado, o que faz com que as pessoas ali não saibam o que é viver em comunidade. Na brincadeira, as crianças vivem em grupos coletivos de uma força incrível. O coletivo é a diversidade, então, separar sempre por faixa etária é prejudicial. Nas manifestações populares isso é muito impactante: uma criança de 2 anos e um senhor de 92 estão fazendo a mesma coisa. É a construção de um corpo coletivo, que se sente integrado. Não abrir espaço para que as crianças possam brincar com diferentes faixas etárias é limitar e segregar o que é a referência da diversidade. Por que, quando uma criança pequena vê uma maior subindo em uma árvore, ela vai saber que um dia ela chega lá. Na brincadeira, você aprende com a referência e aquilo vai sendo vivido ano a ano. Você cresce e a brincadeira continua igual, mas você muda. Ter apenas crianças da mesma idade brincando de amarelinha, por exemplo, é absolutamente limitador.

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