Para aprender sobre a prática

Caso real: como fazer registros pedagógicos em conjunto

Numa escola em Jundiaí, fotos, vídeos, áudios e anotações das atividades dos pequenos ajudam a refletir sobre o desenvolvimento

Na documentação pedagógica, os dados são coletados pela professora e também pela auxiliar de ensino. Foto: Patricia Stavis / Nova Escola

Na Creche e Escola de Educação Infantil Almerinda Pereira Chaves, em Jundiaí (SP), mantida pela Fundação Cintra Gordinho, uma caixa de madeira é motivo de orgulho e atenção. Ela guarda um caderno com anotações, fotografias, vídeos e áudios coletados três vezes por semana a partir das propostas de aprendizado em andamento. “Neste ano começamos a contar como foi o processo de acolhimento dos bebês, quais foram as brincadeiras, os alimentos que despertaram mais interesse, como estão explorando o espaço da escola”, explica Ana Teresa Gavião, que dirige a Fundação e divide a direção da Escola com uma colega. “Aqui o trabalho de dupla já começa na direção.”

Essa narrativa do percurso de aprendizagem, também conhecida como documentação pedagógica, inspira-se na abordagem Reggio Emilia e é uma metodologia de trabalho destinada à reflexão sobre a prática. Os dados são coletados pela professora e também pela auxiliar de ensino. “Em algumas situações, o professor conta uma historinha e a auxiliar registra em fotos as reações dos pequenos. O material organizado num caderno ou numa pasta fica disponível a todos, incluindo famílias e demais funcionários. Além de produto editorial, é um instrumento democrático, aberto à consulta. Os pais tomam conhecimento do cotidiano dos filhos, como reagiram ao ouvir determinada história, por exemplo. Há também muito envolvimento. A cozinheira vai lá na caixa e dá uma olhada no caderno, temos duas ajudantes de limpeza que adoram os bebês e também gostam de ler os registros.”

Na proposta criada pelo pedagogo Loris Malaguzzi na década de 1940 na Itália, a criança é protagonista na construção do conhecimento e isto se dá de modo conjunto – escola, pais, comunidade. Este princípio norteia todo o trabalho da Fundação, e, por isso, a importância do registro das atividades pedagógicas como forma de avaliação. “Fazemos encontros semanais com todos os professores, são duas horas de conversas, reflexão sobre a teoria e compartilhamento de práticas. Como nossos meninos ficam período integral, entendemos que da chegada à saída é preciso ter uma intencionalidade. Damos importância ao planejamento da leitura, da matemática etc., mas também aos momentos de alimentação, de passeio pelo parque. Essa ideia da investigação cotidiana busca dar ênfase à profundidade de um conceito”, afirma Ana Teresa.

O olhar para a beleza dos detalhes aplica-se sobre momentos como a leitura, quando a atenção se volta para as escolhas das obras, os motivos, como tudo é absorvido pelos pequenos. “Também vemos a escola como ateliê, onde se aprende não só na sala de aula, mas em todos os espaços. Certa vez, há muito tempo, fui tentar ensinar como é a cor verde na lousa, como se uma criança nunca tivesse visto uma árvore. Por que vamos falar sobre fotossíntese na lousa se temos uma mata enorme? Pode-se aprender no jardim, na cozinha, na biblioteca, basta ter visão panorâmica.”

Voltando à caixa de madeira, a diretora ressalta a importância desse registro pedagógico para a formação dos professores. “A universidade forma grandes teóricos, mas não discute a prática. A reflexão sobre o registro inverte a lógica ao começar a falar sobre a prática. É um processo transformador, quando ele olha as anotações de um colega ele se inspira, abre-se uma janela. Na metodologia Reggio Emilia usa-se a expressão emprestar ideias. A documentação faz isso, você visualiza o desenvolvimento pedagógico, a relação fica dialógica, ganha vida.”

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