Para repensar a prática

Como avaliar a escrita ou a gravação de um diário

Em situações reais, esse tipo de relato não deve ser lido por ninguém. Então, como fazer a avaliação, sem descaracterizar o gênero?

Por Nairim Bernardo

Ilustração: Julia Coppa/NOVA ESCOLA

Os tipos de diários são muitos, mas todos têm algo em comum: são íntimos. A figura clássica é o caderno com fechadura trancada à chave, para não serem lidos por ninguém. Só em alguns casos o autor resolve publicá-los em livro ou deixa as páginas para alguém ler. No mais, o diário é um baú de tesouros escondidos.

Mas, se o objetivo é não revelar o que foi escrito, como o professor pode utilizar o gênero pedagogicamente? Pode parecer preciosismo, mas é preciso lembrar que todo trabalho com a linguagem na escola deve se fundamentar em situações reais de comunicação. Não faz sentido, por exemplo, escrever um livro de histórias só para avaliação do professor: o bom é que a obra seja criada para leitores de verdade e circule de verdade. Só assim é possível ter uma experiência real com o texto. Por isso, avaliar um diário requer certos cuidados que permitam avaliar o desenvolvimento da aprendizagem (o que é importante) e preservar as características do uso real dos diários (algo tão importante quanto avaliar).

Juliana Ferreira de Melo, professora do Centro Pedagógico da Escola de Educação Básica e Profissional da UFMG, recomenda que a avaliação seja processual e construída democraticamente com as crianças e adolescentes. “O professor deve se perguntar como formar leitores e escritores sem que esse processo pareça uma obrigação e os afaste da literatura. Se um dos principais objetivos da arte é tocar o sensível, não é possível fazer isso pela obrigação e pela nota, mas sim, pelo afeto”, diz ela. 

Valéria da Silveira, professora aposentada de Jundiaí (SP) e membro do Time de Autores NOVA ESCOLA, aponta uma saída concreta para esse dilema. Ela sugere que os professores proponham a escrita colaborativa de um diário com toda a turma. Quando o relato é de um personagem fictício, a análise pode ser feita sem que a intimidade de ninguém seja revelada. Desse modo, os aspectos corrigidos e comentados coletivamente serão agregados a escrita do diário pessoal.  

Caso a turma consinta em deixar que o professor leia uma página de seu diário ou opte por escrever uma específica para a leitura em público, tenha cuidado ao analisar a produção e entregar uma devolutiva. “É preciso fazer apreciações e perguntas que contribuam para a formação do escritor, conversar num tom dialógico com o diário. Por exemplo: ‘Fiquei com vontade de experimentar essa receita que você ajudou a fazer. Pode escrevê-la da próxima vez?’ Ou ‘Não entendi essa palavra/frase. Pode me contar na próxima vez?’”, explica Cristiane Mori, professora do Instituto Singularidades. 

Seja qual for a estratégia adotada, lembre-se de um dos princípios do gênero diário: “Eu escrevo para mim”. Por isso, o essencial é que a criança reflita se ela entenderá o que escreveu caso leia o diário depois de algum tempo.  “Se quem escreveu entende, está ótimo. O que o professor pode fazer é indicar que, dependendo do modo como é feita, a escrita não vai funcionar como registo da memória”, diz Sônia Madi, coordenadora da Plataforma Alfaletrar, do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). Sendo assim, as revisões gramaticais e a reescrita só devem ser feitas se a intenção for publicar aquele trecho de diário em alguma página ou blog para ser compartilhado com a turma.


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