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Para refletir

Por que falar de saúde mental?

Desafios do ensino remoto podem intensificar situações de estresse na rotina dos professores. Rever exigências pessoais para encontrar equilíbrio é essencial

O trabalho nas escolas demanda muito dos educadores. Organizar a rotina, separar momentos para lazer e não exigir demais de si mesmo e do outro são algumas das estratégias para cuidar da saúde mental. Julia Coppa | NOVA ESCOLA

“Faço terapia há 11 anos e continuei durante o isolamento. Se não fosse por ela, já teria largado a sala de aula há muito tempo”, diz Maria Regina Boroni, professora de Língua Portuguesa em turmas do Ensino Fundamental II, Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA). Assim como muitos outros educadores, ela diz sentir-se excessivamente cobrada, estressada e com dificuldades para se adaptar aos desafios das aulas a distância.

Maria Regina mora na cidade de Ponte Nova (MG) e sua realidade assemelha-se à de muitos professores especialistas. Ela trabalha em duas escolas, uma municipal e outra estadual, leciona para 11 turmas e tem aproximadamente 400 alunos. Segundo ela, as redes estabeleceram modos diferentes de trabalho remoto, o que exige ainda mais dos educadores. “É tudo muito novo e diferente. Tento me manter em estado de equilíbrio para dar conta, mas estou tendo que aprender tudo rápido”, desabafa. “Há dias até tranquilos, mas outros são bastante estressantes.”

Em maio, NOVA ESCOLA realizou uma pesquisa para verificar a situação dos docentes durante a pandemia. Dos 8.121 profissionais da Educação Básica que responderam às perguntas, apenas 8% afirmaram sentir-se ótimos ao comparar a própria saúde emocional antes e depois da quarentena. Outros 28% avaliaram como péssima ou ruim e 30% como razoável.

Na prática, esses números traduzem-se no corpo e na mente como tristeza ou apatia, desmotivação, sensação de esgotamento físico e mental, falta ou aumento do apetite, dores físicas, dificuldade de concentração e oscilações de humor. Em alguns casos, é possível desenvolver transtorno de ansiedade, depressão ou síndrome de burnout (síndrome do esgotamento nervoso).

Segundo Rodrigo Bressan, presidente do Instituto Ame sua Mente e organizador do livro Saúde Mental na Escola, a pandemia de coronavírus colocou todos em um estado de incerteza, o que gera ansiedade. As pessoas pouco vão para a rua, o trabalho passou a ser realizado em casa, o convívio com amigos e colegas de profissão diminuiu e todos vivem um luto social. Essa nova rotina, que não foi desejada por ninguém e também não tem data para terminar, fez com que precisássemos nos reinventar.

No caso dos professores, a introdução das tecnologias digitais como ferramenta de trabalho pegou muitos de surpresa. “A geração dos docentes atuais não é nascida em um mundo já conectado, então, eles não têm familiaridade com o universo digital. E isso causa grande angústia”, comenta Luciene Tognetta, professora de Psicologia Escolar da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Além disso, a Educação remota tem como base a capacidade de o aluno se auto-organizar, o que não era incentivado nas metodologias de ensino tradicionais, mais conteudistas e pautadas no processo em que o professor transmite o conhecimento. Auxiliar os estudantes nesse novo formato gerou um desafio extra para muitos educadores.

Reveja as exigências pessoais e coletivas

Para os professores do Ensino Fundamental II, há também, em muitos casos, uma pressão maior para cumprir o currículo – algo que deveria ser revisto neste período. Para Luciene, a equipe escolar necessita repensar o planejamento de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), priorizar conteúdos e decidir o que pode ser ensinado on-line e o que precisa esperar a volta ao presencial. Esse trabalho exige uma grande parceria entre docentes e gestores.

“Todo mundo está tentando fazer alguma coisa, mas, às vezes, nem os representantes das secretarias de Educação nem o gestor têm resposta para tudo. Um vai cobrando o outro e vira uma guerra de cobranças”, diz Maria Regina. A docente conta que isso, muitas vezes, faz com que ela também pressione os alunos; e seja cobrada pelas famílias. “Eu me desdobro, mas já escutei que professor defende isolamento porque não faz nada, só fica em casa”, lamenta. “Mas é o contrário: estou trabalhando até mais”, afirma. O que a comunidade escolar precisa lembrar é que se trata de um momento novo na vida de todos, e a ausência de respostas pode ser mais comum do que o desejado. Não deve haver cobranças extremadas de nenhuma parte.

Para resguardar a própria saúde mental, é essencial que os educadores organizem sua rotina, separem momentos para atividades físicas e de lazer e também para o convívio com a família e os amigos – mesmo que por meio de videochamadas (leia outras sugestões sobre como cuidar da saúde mental aqui). No que diz respeito aos aspectos profissionais, a dica de Rodrigo é entender que todo mundo está em um nível de estresse muito alto e não exigir demais de si mesmo ou do outro. “O mais saudável agora é dar uma aula on-line e compreender que vai errar várias coisas no manuseio dessa tecnologia. Nada está perfeito e não precisa estar”, diz o psiquiatra. “Devemos lidar com as frustrações para enfrentar nossos novos desafios”, incentiva. 

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