O desafio e a solução

Sem excluir ninguém: atividades impressas para quem não tem acesso à internet

Desde março, todas as escolas da rede municipal de Coruripe adaptam e imprimem aulas e atividades para os alunos sem internet. A entrega é feita de carro, moto e até bicicleta

A comunidade escolar mobilizou-se, ao lado dos educadores, para viabilizar a entrega dos materiais. Na foto, grupo de ciclistas voluntários do município com os materiais produzidos pela escola. Foto: Itawi Albuquerque/NOVA ESCOLA  

Assim como todas as cidades do país, também em Coruripe, que fica a 70 quilômetros de Maceió, a capital alagoana, professores, alunos e comunidade foram pegos de surpresa com a paralisação das aulas em decorrência da pandemia. 

Um decreto municipal determinou, no dia 11 de março, que as escolas fossem fechadas. “Em um dia tivemos aulas normais. No dia seguinte, tudo parou e a escola foi fechada”, relembra Alexandrina Ferreira Gouveia, diretora da Escola Municipal de Educação Básica Liége Gama Rocha.

Após alguns dias da interrupção de aulas sem prazo determinado para a volta – o que persiste até hoje –, alguns professores da escola tiveram a ideia de imprimir algumas aulas e entregá-las nas casas dos alunos.

As tarefas foram embaladas em sacos plásticos e higienizadas, e os professores foram até as casas dos estudantes com máscara e mantendo o distanciamento seguro. O exemplo também foi seguido por professores da EMEB José Buarque da Silva, na mesma cidade.

Naquele momento, a Secretaria Municipal de Educação avaliava os formatos do ensino remoto da rede, lançado logo depois, no dia 18 de março, para as 20 escolas da rede. 

Houve redefinição do calendário escolar e organização de plataformas digitais de apoio ao ensino a distância com aulas virtuais, lives em redes sociais e repositórios on-line para as atividades. “Nas avaliações iniciais com os gestores escolares, identificamos um número alto de alunos que não estavam participando das aulas a distância porque não tinham acesso à internet”, conta Maria José Marques Nascif Sousa, secretária adjunta de Educação. 

Em um mapeamento feito junto às escolas, verificou-se que dos quase 13 mil alunos da rede municipal, cerca de 1,6 mil não tinham conexão – sendo esta maioria formada por estudantes do Ensino Fundamental 2 e da Educação de Jovens e Adultos (EJA).



UM RAIO X DE CORURIPE (AL) 

20 escolas municipais
13 mil alunos
1,6 mil sem conexão
20% a 25% acessa o material em papel
Ideb/Anos finais: 6,3 

Ponto a ponto: o desafio e a solução de Coruripe (AL)

  1. Quando a pandemia começou, identificou-se que um alto número de alunos não participava das aulas por não ter acesso à internet.

  2. A solução, iniciada por professores, apoiada pela rede e abraçada pela comunidade, foi planejar, organizar e distribuir materiais impressos para aqueles que precisavam. 

  3. As aulas, que também ocorrem on-line, são adaptadas, impressas e distribuídas para pais e alunos na escola ou entregues nas casas mais distantes.

  4. Protocolos de segurança: as tarefas são colocadas em sacos plásticos e higienizadas. A distribuição, aos domingos, é feita com máscaras e respeito ao distanciamento social. 

  5. Participação da comunidade: moradores e pais de alunos ajudam na distribuição de forma voluntária. 

  6. Estratégias dos professores para a adaptação: planejamento simultâneo das aulas síncronas e assíncronas. As tarefas impressas são mais enxutas, com menos questões, há preocupação em expor o passo a passo e apresentar relações com o cotidiano. Há estímulo também ao registro de dúvidas e às manifestações por escrito sobre o tema. 

  7. As tarefas entregues são, depois, recolhidas e devolvidas aos professores. 

  8. Mesmo com todos os desafios, a rede avalia que a estratégia aproximou as escolas das comunidades, com ganhos para todos. 


Estratégia pela equidade

A equipe da secretaria soube pelas redes sociais do trabalho de entrega de tarefas impressas pelas duas escolas e achou a estratégia interessante: “Se os professores estavam conseguindo fazer a entrega, nós, como secretaria, também poderíamos fazer”, afirma Maria José. 

A secretaria fez reuniões com técnicos e membros do Conselho Municipal de Educação para estruturar a ideia e identificar pontos de atenção. Depois, em conjunto com gestores escolares, definiu o plano que determinava que semanalmente as aulas da rede seriam adaptadas, impressas e colocadas à disposição dos alunos e pais para retirada nas escolas ou então para entrega nas casas mais distantes em carros da Secretaria de Educação. 

“Para quem não conseguia retirar nas escolas, organizamos um cronograma, e cada escola tinha um dia da semana para entrega do material feita de carro”, conta. 

Tarefas sobre rodas

A ida aos povoados distantes passou a atender mais alunos, sim, mas a um custo alto para a secretaria: “Toda semana o carro tinha de ir para a oficina mecânica.” A solução veio com a parceria com grupos de ciclistas da cidade, o MTB Coruripe e o Alto Giro Coruripe, ambos formados por moradores que já se reuniam para praticar o esporte de forma amadora.

Todos os domingos, os ciclistas – alguns deles pais de alunos da rede municipal distribuem as atividades da semana e, também, recolhem as feitas na semana anterior.  Para trajetos mais longos ou entregas surgidas de última hora, eles usam também motos próprias. Uma ação que é totalmente voluntária. 

“Nos distribuímos para estar todas as manhãs de domingos nas escolas. Com os endereços indicados pela direção, dividimos as rotas entre nós na hora e fazemos as entregas e as coletas”, conta José Jorge dos Santos, comerciante na cidade, e que pertence ao Alto Giro, grupo que reúne 28 ciclistas. 

No outro grupo, o MTB Coruripe tem algo em torno de 15 membros que participam da ação. A cada domingo, os ciclistas rodam entre 15 e 30 quilômetros pelo município. “Não podemos excluir ninguém, especialmente agora. Temos como meta estimular ainda mais os alunos para que aproveitem ao máximo os aprendizados deste ano”, avalia a diretora Alexandrina, da Escola Liége Gama Rocha. 

Na escola pioneira na iniciativa de busca ativa com as atividades impressas, o número de alunos que acessam o material em papel tem oscilado entre 20% e 25%. 

A instituição tem cerca de 1,6 mil estudantes matriculados. Alexandrina explica que o número de alunos que retiram ou recebem o material em casa varia de acordo com as possibilidades das famílias. Há quem tenha conseguido comprar celular ou, pelo contrário, que tenha tido de vendê-lo durante a pandemia. 

Além de colocar à disposição e entregar os materiais impressos e de entregá-los, a escola estimula alunos e pais próximos a irem até lá para baixar os conteúdos em pen drives ou pelo celular. Trata-se de um projeto próprio chamado Estação Offline. 

Aulas adaptadas

Com determinação da produção de conteúdos impressos para retirada nas escolas ou entrega nas casas de alunos, estabeleceu-se entre os professores da rede municipal a dinâmica de planejar, toda semana, o conteúdo das aulas para os alunos que acessam as plataformas síncronas e, também para quem consegue apenas acessar o material impresso. 

“A meta principal é fazer com que os alunos não parem”, avalia o professor de Matemática Glédson Tenório de Almeida, da Escola Municipal de Educação Básica Engenheiro Guttemberg Brêda Neto. Docente de turmas do 6º ao 9º ano, Glédson calcula que 50% dos cerca de 120 alunos buscam ou recebem os materiais impressos das aulas. 

A professora de Língua Portuguesa Verônica Maria Silva dos Santos, da escola Liége Gama, conta que, neste período, criou o hábito de fazer o planejamento simultâneo das aulas síncronas com a assíncronas para seus alunos do 6º e do 8º ano. “Procuro pensar em como equilibrar as aprendizagens entre os dois formatos”, conta. 

Para os materiais impressos, busca sempre estimular os alunos a registrarem dúvidas, a se manifestarem por escrito sobre o tema colocado nas atividades. Com os retornos das tarefas em mãos, ela conta que consegue manter um vínculo mínimo com os alunos. “Não é apenas um trabalho professor e aluno, mas professor, aluno, escola, entre alunos, comunidade. Entre todos mesmo”, reflete.

Mesmo com as dificuldades de logística de entregas de atividades escolares em papel, a oscilação de participação dos alunos, as barreiras de infraestrutura, as escolas atuam diariamente para segurar os índices de evasão escolar. 

“Apesar de todos os desafios que enfrentamos até hoje, hoje as famílias e a comunidade estão mais próximas das escolas do que antes”, analisa Maria José, da Secretaria de Educação.

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