Para aprender com a prática

Agricultura multidisciplinar

Em São Paulo, quatro professoras articularam-se para ir além do senso comum e aproximar as turmas do 9º ano do mundo rural

Por Camila Cecílio

Desenvolver o senso crítico do aluno a respeito do setor agrícola brasileiro foi um dos objetivos do projeto. Foto: Milena Aurea/Nova Escola

Qual modelo agrário deveria receber mais incentivos do governo federal brasileiro nos próximos anos: o agronegócio ou a agricultura sustentável? Essa foi a questão-problema que norteou o projeto "Agricultura no Brasil: o que vamos colher no futuro?", desenvolvido pela professora de Geografia Mariana Martins Lemes, em parceria com outras três educadoras, para alunos do 9º ano da EE Prof. Jácomo Stávale, na zona norte de São Paulo.

A ideia surgiu no final de 2017, quando Mariana percebeu que o assunto renderia em 2018 devido, principalmente, a mudanças em leis ambientais e relacionadas ao trabalho análogo à escravidão no país. Ao discutir economia externa, agronegócio e Produto Interno Bruto (PIB), a professora notou também que os estudantes possuíam um conhecimento superficial a respeito do tema. “Os alunos pensavam que o agronegócio que produzia o nosso alimento e não a agricultura familiar, por exemplo. São vários aspectos que não estavam claros pra eles”, lembra. 

Ao se debruçar sobre o assunto, Mariana percebeu que o tema era tão complexo que não daria conta de se aprofundar apenas nas aulas de Geografia. O intuito dela era fazer com que os estudantes desenvolvessem o senso crítico para, ao final do processo, se posicionassem. A educadora enxergou na interdisciplinaridade a chance de alcançar esse objetivo com êxito. Pesquisando sobre os currículos de outras disciplinas, ela encontrou a possibilidade de explorar a agricultura também nas aulas de História, Ciências e Língua Portuguesa. É quando entram em cena as professoras Helenita Fernandes de Souza Lopes, Sara dos Santos Vergílio e Débora Rodrigues Fucidji. 

Contra a polarização, o pensamento científico 

Juntas, as quatro encontraram diversas possibilidades de trabalhar a agricultura no Brasil em suas respectivas disciplinas. No primeiro bimestre de 2018, as professoras observaram características de aprendizagem de cada aluno para, no segundo bimestre, colocar o projeto em prática a partir da organização de grupos colaborativos com até cinco participantes. Ao todo, foram envolvidos cerca de 200 alunos de seis turmas de 9º ano ao longo de seis meses. “O intuito era que a gente conseguisse que eles percebessem a relação entre as diferentes ciências para pensarmos na questão-problema proposta”, explica Mariana. 

A professora conta como foi o desenvolvimento do projeto, um dos vencedores do prêmio Educador Nota 10 de 2019, no áudio a seguir:

O assunto rendeu e, como tudo que é polêmico, houve polarização. Para “driblar” isso, as professoras se aliaram ao conhecimento científico. “Nosso foco nunca foi parar tudo e discutir o que era melhor, se uma coisa ou outra. O plano era que eles mesmos buscassem fundamentos para embasar seus argumentos e descobrissem, por conta própria, o que há por trás da agricultura no Brasil”, conta Mariana. Para ela, seria raso e geraria mais polarização fazer apenas um debate sobre o tema. “O foco sempre foi: ‘ninguém aqui vai te dizer o que você tem que pensar sobre isso, é você quem vai dizer onde acha que o governo tem que investir mais”, ressalta. 

Para reforçar esse objetivo, a professora de História Helenita Fernandes de Souza Lopes levou os alunos ao Museu da Imigração, em São Paulo, para contextualizar a importância da agricultura para entender a ocupação do território e a formação da população brasileira. Além disso, mostrar o papel desempenhados pelos imigrantes, especialmente com a produção de café. Na disciplina, eles também viram como a mão de obra escrava foi substituída por quem vinha de outros países. 

No áudio a seguir, a professora Helenita relata como trabalhou o tema em História.

Para a educadora, a maior contribuição da disciplina de História para o projeto foi conversar com as turmas sobre o desenvolvimento do Estado, dos costumes, das tradições, das línguas, influências e questões políticas. Mas, o mais valioso para a professora foi perceber que os estudantes realmente conseguiram enxergar a relação dos conteúdos trabalhados nas quatro disciplinas. Outro ponto positivo, de acordo com ela, foi a oportunidade de trabalhar interdisciplinarmente. “Foi uma experiência muito rica, pois nos ajudamos muito, conversávamos o tempo todo sobre o andamento do projeto. E perceber o aluno entender a matéria vendo a continuidade nas disciplinas foi incrível”, relata Helenita. 

Os desafios de um projeto inovador

Mas, por trás de tantos resultados positivos, houve muito esforço. As professoras enfrentaram alguns obstáculos para fazer com que o projeto tivesse bons resultados. Um deles foi a falta de tempo dentro da jornada de trabalho para organizar o projeto, o que acontecia nos intervalos entre uma aula e outra ou, até mesmo, nos corredores da escola. Outro ponto foi a questão financeira, já que elas tiveram que pagar, por exemplo, os cadernos de registro usados no projeto e materiais impressos. 

O processo de mobilizar os alunos que, no geral, ocorre lentamente, também foi um desafio para as quatro. No começo foi difícil, já que os estudantes tinham uma visão preconceituosa do trabalho no campo, segundo Mariana. Ela diz, ainda, que por conta da falta de verba e organização, deixaram algumas ações do projeto de fora, como, por exemplo, a ida a uma fazenda para conhecer, na prática, o cultivo da cana. O lado positivo disso tudo, para a professora, é que a interdisciplinaridade fez com que o engajamento ganhasse força, de modo que os conteúdos passaram a fazer parte do cotidiano dos alunos, mesmo em um contexto urbano. 

No final do projeto, além da proposta de artigo de opinião feita pela professora de Língua Portuguesa, as educadoras elaboraram um questionário de autoavaliação digital. Para respondê-lo, os estudantes tiveram que refletir sobre cada uma das etapas do projeto e seus aspectos positivos e negativos. 

“No final disso tudo, crescemos muito profissionalmente, aprendemos juntas e percebemos o quanto poderíamos ser melhores enquanto professoras. Acredito que, para realizar um trabalho como esse, é preciso ter humildade, ouvir o que o colega tem a dizer e descobrir como podemos ajudar e participar do projeto. Humildade, acredito que é o melhor caminho para trabalhar interdisciplinarmente”, completa a professora Helenita.

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