Exclusão digital

Eles não tiveram aula on-line: o que fazer com alunos sem acesso na pandemia?

Conheça sugestões para lidar com estudantes que não conseguiram acompanhar as aulas on-line, que estão com defasagem ou com diferentes níveis de aprendizagem no retorno ao presencial

Animação feita de fotomontagem comparando as expectativas e a realidade de aluno que não conseguiu participar das aulas online.
Créditos: Duda Oliva/NOVA ESCOLA, Allen Taylor/Unsplash e Domenico Ioia e Nicole Michalou/Pexels

Pouco a pouco, os alunos estão voltando para o espaço da escola em 2021. Mas, com o fim da pandemia ainda distante no horizonte, as desigualdades educacionais avançam: nas escolas públicas, muitos estudantes não conseguiram acompanhar as aulas por dificuldades de acesso à internet, ampliando a defasagem e o risco do abandono escolar e da evasão.

Segundo levantamento do Unicef, ainda em novembro de 2020, 3,7 milhões de estudantes matriculados não tiveram acesso às atividades escolares e não conseguiram estudar em casa. Em São Paulo, 667 mil estudantes de 6 a 17 anos ficaram sem estudar no ano passado: 9,2% das crianças e dos adolescentes em idade escolar no estado. Outra pesquisa informa que 35% dos alunos com renda familiar de até 2 salários mínimos perderam o interesse pela escola.


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Recentemente, o Inep divulgou um levantamento a partir de um questionário respondido por mais de 168 mil escolas brasileiras. Os dados mostram que 84% dos estudantes usam o celular para estudar, mas 4 entre 10 precisam dividir o aparelho com outros membros da família, o que dificulta o acompanhamento. O estudo mostra, ainda, que 8% dos estudantes abandonaram a escola em 2021 por não terem acesso à internet. 

O Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP) e o Centro de Aprendizagem em Avaliação e Resultados da Fundação Getulio Vargas (FGV) avaliaram a eficiência dos planos de educação remota de estados e capitais. Os resultados, mensurados entre março e outubro de 2020, mostram um cenário ruim: a nota média dos planos estaduais no Índice de Educação a Distância foi de 2,38 (de 0 a 10) e de 1,6 para os das capitais. Embora os dados já tenham alguns meses, são os das pesquisas mais completas sobre o tema divulgadas até agora. Em São Paulo, o ensino híbrido foi retomado ainda no primeiro semestre deste ano, mas a realidade vivida pelos professores em sala de aula corroboram os indicadores. 

Para Antônio Alexandre da Silva, professor do Instituto Singularidades, o foco neste momento deve ser a permanência do aluno na escola e tentar garantir a aprendizagem dos conteúdos essenciais.

Para contornar a situação, Antônio Alexandre sugere que o professor organize um núcleo básico de conteúdos considerados essenciais para o ano da escolaridade e, posteriormente, pensar em ampliar essas habilidades e conteúdos. “O restante fica para planos de longo prazo. O que não se pode pensar é que é uma questão insolúvel”, afirma o educador. Antônio acredita, ainda, que as soluções não são imediatas ou gerais. “Vamos perceber que cada comunidade encontra um caminho para repor essa defasagem. Só não encontrará se o estudante não estiver na escola, portanto essa é prioridade”, defende.  

NOVA ESCOLA conversou com dois educadores para ajudar os professores a superarem a maior barreira do retorno: a defasagem de aprendizado que veio do acesso precário ao ensino remoto. Confira as orientações de Renata Capovilla, cofundadora da Íntegra Educacional, e de Marcelo de Freitas Lopes, diretor pedagógico da Foreducation EdTech.

O aluno não acompanhou nenhuma atividade escolar e não voltou ao presencial

O que fazer? A gestão da escola precisa agir diante de uma situação como esta. Procurar os responsáveis desse aluno, compreender quais são as dificuldades que foram enfrentadas e se há comorbidades que impedem o retorno do aluno. Nesse caso, a gestão poderá acionar o Conselho Tutelar da cidade e, em parceria, reverter o quadro de evasão escolar.

Ou seja, é necessária uma ação conjunta, promovendo campanhas e busca ativa em parceria com as famílias, da sociedade civil organizada, escolas e secretarias de Educação. Os programas sociais também devem considerar a assiduidade dos alunos quando a volta ao presencial for segura e obrigatória.

O aluno acompanhou só parcialmente as atividades da escola e voltou ao presencial com defasagem

O que fazer? É importante compreender o que o aluno já sabe, o que desenvolveu no período remoto e o que é essencial desenvolver para ir para o próximo ano. Para isso, uma ótima estratégia é utilizar os mapas de foco desenvolvidos pelo Instituto Reúna. Todas as habilidades são direitos garantidos aos estudantes, mas algumas são inegociáveis e precisam ser priorizadas. Nesse caso, o professor deve focar nessas e garantir o máximo possível do desenvolvimento das mesmas no tempo de aula até o fim do ano letivo.

É necessário, ainda, realizar atividades diagnósticas, traçar novas metas e replanejar, priorizando competências, habilidades e conteúdos estruturantes. É importante continuar com investimentos em tecnologia para potencializar o trabalho dos professores, aumentar o tempo de estudo e tornar as aulas mais interativas e dinâmicas.  

Parte da turma aprendeu os conteúdos e outra não conseguiu acompanhar, e além de tudo, a escola está fazendo rodízio de alunos 

O que fazer? Salas heterogêneas sempre foram uma realidade dos professores que, neste momento, estão mais evidentes. O Ensino Híbrido pode ser parte da solução, quando se considera a personalização da aprendizagem, mas será necessário investir mais em formações de professores e em tecnologias que considerem o ritmo e as dificuldades de cada aluno. 

É hora de realmente colocar as metodologias ativas em prática e, na medida do possível, personalizar o ensino de acordo com a necessidade de cada estudante. 

Para aquele que está com lacunas, preparar materiais para estudar em casa e depois sistematizar em classe, utilizando, assim, a sala de aula invertida. É possível também planejar trocas de conhecimento e desenvolvimento de atividades em que os alunos sejam protagonistas de seus conhecimentos e demonstrem isso. A personalização do ensino e colocar o aluno no centro da aprendizagem utilizando metodologias ativas serão imprescindíveis para que os alunos com lacunas se aproximem o máximo possível dos demais.

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