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Entrevista: A Gripe Espanhola no Brasil

O historiador Leandro Carvalho detalha os impactos da pandemia de 1918 no país

Por Miguel Martins

Policiais brasileiros observam um cidadão doente em 1918. Foto: Fon Fon/Biblioteca Nacional

Aulas suspensas, eventos públicos cancelados, autoridades infectadas e hospitais lotados. O cenário vale para a atual pandemia de coronavírus, mas também resume bem o que foi a gripe espanhola de 1918 no Brasil. Apesar do nome, a doença causada pelo vírus H1N1 não veio da Espanha. O que vinha do país europeu eram as notícias sobre os efeitos da gripe, que levou à morte de ao menos 17 milhões de pessoas em todo o mundo. 

Trazido por navios estrangeiros que atuavam direta ou indiretamente na Primeira Guerra Mundial, o H1N1 chegou à costa brasileira em 1918. Disseminou-se pelo interior do país a partir das ferrovias que conectavam mercadorias, como o café, ao restante do mundo. Em pouco tempo, fez milhares de vítimas, entre eles, o presidente eleito naquele ano, Rodrigues Alves.

Autor de dois estudos sobre os impactos da gripe espanhola no Brasil e do livro A Pandemia de Gripe Espanhola de 1918 na "Metrópole do Café", Leandro Carvalho, doutor em História pela Universidade Federal do Goiás e chefe do departamento da Área Acadêmica do Instituto Federal de Goiás, explica na entrevista abaixo como a doença se espalhou pelo país há 102 anos e quais paralelos podemos traçar com a atual pandemia. Confira: 

NOVA ESCOLA: Por que a pandemia de 1918 ficou conhecida como gripe espanhola?
LEANDRO CARVALHO: A pandemia surge no contexto do final da Primeira Guerra Mundial. A Espanha permaneceu neutra durante todo o conflito e, assim, o governo espanhol não impediu a divulgação pela imprensa dos efeitos da pandemia, ao contrário de outros países envolvidos. Por isso, muitos acharam na época que a doença tinha começado aqui. Mas sua provável origem é na China ou nos Estados Unidos.

Segundo suas estimativas, quantas pessoas foram infectadas pela gripe espanhola em 1918 no Brasil? E quantas morreram? 
Embora se estime cerca de 35 mil óbitos no país por causa da gripe, acredito que muito mais pessoas faleceram em decorrência de complicações relacionadas ao vírus. É provável que de 30% a 40% da população tenha sido infectada e 8% a 10% tenha perecido. Os dados epidêmicos não são muito consistentes. Os atestados médicos a que tive acesso na cidade de Goiás, por exemplo, não relatam mortes por gripe espanhola. É como a Aids, é uma doença multifatorial. Em 1918, geralmente eram registradas mortes por doenças respiratórias.

Como a modernização urbanística e a criação das favelas pode ter influenciado no alto número de mortes no Rio de Janeiro, que registrou um terço das vítimas em todo o Brasil?
A política sanitária brasileira no início do século 20 buscava combater focos endêmicos e epidêmicos, cuidando menos da prevenção. A modernização urbana do Rio, com a derrubada dos cortiços e a revitalização da região central da cidade, resultou em um fluxo populacional para as periferias e para os morros. 

Assim como no caso do coronavírus, as primeiras pessoas infectadas com a gripe espanhola viajavam e tinham contato com países estrangeiros. Muitas eram ricas e buscavam refúgio em casas de campo para não ser atingidas pela doença. Mais tarde, aglomerações como favelas e cortiços viraram locais privilegiados para a disseminação do vírus. Depois que a epidemia se alastra, as principais consequências da gripe recaem sobre a classe trabalhadora.

Morte fantasiada de gripe espanhola. Charge: Biblioteca Nacional

O que foi feito para controlar a doença?
Uma das primeiras medidas foi a paralisação das aulas. No segundo semestre de 1918, boa parte das escolas foi fechada. Rodrigues Alves, eleito presidente em março daquele ano, morre em janeiro de 1919 por causa da gripe espanhola. Ele nem sequer chega a assumir a Presidência. Assume então o vice, Delfim Moreira, que assinou um decreto de aprovação automática de todos os alunos matriculados no ano anterior, sem sequer haver reposição de aulas.

Depois do fechamento das escolas vieram as proibições a festas e eventos que envolvem aglomerações. Teatros, bares, festas populares, tudo foi proibido. As partidas de futebol também foram paralisadas, assim como clubes, matinês. São muitas as semelhanças com o que ocorre hoje.  

Como a gripe espanhola impactou a saúde pública? 
Até 1918, não havia um sistema público de saúde no Brasil. Havia as diretorias de higiene nos estados e as inspetorias de higiene nas cidades. Não havia ainda um Ministério da Saúde. A gripe espanhola levou as autoridades a valorizarem políticas sanitárias e de prevenção. Em São Paulo, começou-se a discutir uma Educação sanitária. A atuação do médico Geraldo Horácio de Paula e Souza e do Instituto Higiene tem papel determinante nas políticas de prevenção, o que vai desembocar na criação do Ministério da Educação e Saúde por Getúlio Vargas.



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