O DESAFIO E A SOLUÇÃO

Como a professora Sandra desbravou a tecnologia para manter vínculo com os pequenos

Pega desprevenida no início da pandemia como tantos educadores, hoje ela utiliza diversos recursos para gravar vídeos curtos e fazer apresentações

"Estamos distantes, porém mais próximos", resume Sandra sobre a relação com as famílias. Foto: Ricardo Lima/NOVA ESCOLA

Mesmo já sabendo da importância do uso da tecnologia para a Educação, muitos professores ainda não tiveram a oportunidade ou o interesse de estudar a respeito do tema e foram pegos totalmente desprevenidos quando a quarentena transformou computadores e celulares em uma das poucas opções de ensino remoto. Foi o que aconteceu com a professora Sandra Waragai, responsável por crianças de 3 e 4 anos de idade no Centro Educacional de Convivência de Educação Infantil (CECI) Herdeiros do Futuro, em Louveira (SP), que hoje utiliza bastante os recursos digitais.

Toda segunda-feira Sandra envia no grupo do WhatsApp (plataforma escolhida pelas famílias) o “bloco da semana” com as atividades propostas para aquele período e todos os dias cria no Canva um card com indicações para a atividade do dia, como se fosse uma lousa digital. Além disso, ela também utiliza o aplicativo Kinemaster para gravar e editar vídeos com fundos diversos, podendo colocar-se em qualquer cenário. Mas até conseguir fazer tudo isso, ela precisou vencer uma série de barreiras.

“Para propor essas atividades, tem de falar para a câmera e por isso precisei perder a timidez. E já gravei um mesmo vídeo dez vezes porque errava uma palavra ou esquecia a sequência da atividade. Na minha rede, a produção de vídeos não foi colocada como algo obrigatório, mas eu achei importante porque as crianças gostam de ver e ouvir a professora, e estou tendo um bom retorno”, comenta a professora Sandra.

Para não sobrecarregar crianças, famílias e a si mesma, ela grava no máximo dois vídeos por semana e se esforça para que cada um não ultrapasse quatro minutos de duração. Além disso, utiliza o aplicativo VideoShow para montar slides com fotos de livros e um áudio seu realizando a leitura. No aplicativo, Sandra também faz álbuns dos aniversariantes do mês e já editou uma apresentação especial para o Dia dos Pais. Assim como muitos outros professores, ela não conhecia esses recursos antes do início da quarentena, mas aprendeu a utilizá-los através de dicas de colegas e tutoriais que encontrou na internet. 

Íris Ribeiro de Sá, mestre em Gestão em Tecnologias Aplicadas à Educação pela Universidade do Estado da Bahia, diz que uma mudança muito perceptível ocorrida em 2020 foi o letramento tecnológico dos professores. “Não havia um grupo significativo de professores de Educação Infantil familiarizado com as tecnologias da informação e da comunicação, pois nessa etapa isso não era visto como material do dia a dia. Eles precisaram aprender a usar os recursos, tanto do ponto de vista técnico quanto tecnológico.” Ela explica que o saber técnico é saber postar uma foto e o tecnológico é saber o que fazer com ela pedagogicamente, por exemplo. 

Para que tudo isso alcance o objetivo principal, que é apoiar o desenvolvimento das crianças, a participação das famílias é essencial. A coordenadora do Herdeiros do Futuro, Júlia Cravo Della Serra, diz que no início da quarentena os pais foram à creche retirar um material didático e que desde então, só os que não têm acesso à internet vão semanalmente buscar uma lista de propostas a serem feitas em casa. Segundo Júlia, há pais que realizam todas elas com as crianças e dão retorno. Outros têm dificuldade porque trabalham o dia todo, mas estão se desdobrando para participar.

“Estamos distantes, porém mais próximos. No começo, eu enviava um cartão desejando uma boa semana e os pais já gostavam. Não exijo atividades que os pais tenham de fazer como professores, eles não são. Eu elogio muito o que eles fazem como pais”, reflete Sandra. “Não nos prendemos a conteúdos, e sim, ao vínculo. Ma há várias crianças que eu percebo que desenvolveram bastante algumas habilidades. É visível o avanço da sondagem do começo do ano [realizada presencialmente] para agora.”

Animada com o trabalho que está sendo realizado, a coordenadora Júlia elogia: “A professora Sandra faz tudo com muita dedicação, empenhou-se para aprender a mexer em aplicativos e fazer materiais de muita qualidade. Há propostas bem diferenciadas e com foco no nosso pilar, que gira em torno de brincadeiras e interações”.

Mais do que uma medida emergencial, o uso da tecnologia precisa ser aceito e desenvolvido para uso permanente em todas as etapas da Educação. “Na volta ao presencial, a tecnologia será um conhecimento agregado. Pelo amor ou pela dor, todo mundo teve de lidar com ela para poder trabalhar e o analfabetismo digital diminuiu”, comenta Íris. Para ela, mesmo com as perdas, o impacto na Educação Infantil foi ainda maior, porque os pais tiveram de mediar e participar mais da vida escolar das crianças. Assim, a escola teve a oportunidade de conhecer melhor as famílias e fortalecer essa parceria, tão necessária.

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