O DESAFIO E A SOLUÇÃO

Como uma escola inspirada em Reggio Emilia mantém a gestão democrática na pandemia

A Almerinda Pereira Chaves, em Jundiaí, tem buscado envolver toda a comunidade escolar nas decisões sobre o contexto remoto e o retorno às atividades presenciais

Com aprovação de toda a comunidade escolar, a professora Isabella e a coordenadora Bruna têm mantido encontros on-line e conversas semanais com as crianças e famílias. Foto: Rogério Pallatta/NOVA ESCOLA

O educador Loris Malaguzzi (1920-1994), de Reggio Emilia, cidade localizada ao norte da Itália, jamais imaginou que um dia o espaço do professor teria de ser adaptado para telas de computador ou que a escuta das crianças viria por meio de áudios no WhatsApp. Muito menos que a documentação pedagógica, tão cara à abordagem consagrada na cidade italiana após a Segunda Guerra Mundial, teria a família como intermediária. 

No entanto, foi justamente esse o desafio com que se depararam os educadores da Escola de Educação Infantil Almerinda Pereira Chaves, em Jundiaí (SP), quando foi decretada a quarentena. Adepta da abordagem pedagógica sistematizada por Malaguzzi, a instituição teve de se reinventar para continuar a levar à frente os preceitos de Reggio Emilia (entenda mais sobre a abordagem aqui).

Se por um lado não haveria como garantir a mesma qualidade de relações e de ensino e aprendizagem, por outro os educadores não poderiam abrir mão de manter contato com as crianças e tentar promover o bem-estar e experiências educacionais significativas para elas.

Para planejar esse caminho, ainda em março, a escola convidou todos os envolvidos – educadores, famílias, coordenação pedagógica e assistência social – a falarem sobre suas demandas, receios e expectativas. Juntos, como pede a gestão democrática defendida pela abordagem Reggio, definiram que as crianças participariam de dois encontros on-line semanais, com duração de 20 minutos cada, e que eles teriam um caráter lúdico, dinâmico, que privilegiasse as interações.

“As crianças vão entrando na sala virtual e nós conversamos sobre como elas estão, ou o que elas quiserem me contar. Depois a gente faz uma leitura, canta uma música, e aí realizamos uma atividade. Em uma delas, por exemplo, eles fizeram um retrato do colega, e depois se divertiram vendo as produções dos outros”, conta a professora Isabella Moraes, que acompanha uma turma de crianças de 5 a 6 anos.

Quando essas primeiras interações virtuais começaram a acontecer, os professores sabiam que havia chegado a hora de ouvir também o que as crianças tinham a dizer. E o que perceberam foi uma grande empolgação da turma em poder se encontrar e interagir. Os 20 minutos previstos inicialmente começaram a parecer pouco. Agora, os encontros duram o que for necessário para que eles desenvolvam as propostas com qualidade e engajamento.

A documentação intermediada 

Parte das atividades educativas também é enviada para as famílias como sugestões para que elas façam juntamente com as crianças ou que proporcionem as condições para os pequenos as realizarem sozinhos. Nesses momentos, as famílias são encorajadas a tentar registrar as ações das crianças durante o desenvolvimento da proposta, bem como o resultado final. 

“Por meio de um áudio que a criança envia para a professora contando o que achou da proposta, ou quando um pai grava um áudio da criança cantando ou com uma fala rica de conhecimento, uma expressão, conseguimos enxergar e documentar as aprendizagens que estão acontecendo e planejar os próximos passos”, explica Bruna Soares da Silva, coordenadora pedagógica da Educação Infantil.

A relação entre escola e famílias

Enquanto a creche estava aberta, os horários de entrada e saída eram estendidos para que pais e responsáveis pudessem passar um tempo na escola conversando com os educadores, algo muito próprio da abordagem Reggio Emilia. Para manter essa relação sem se restringir aos grupos de WhatsApp, a escola criou encontros semanais de 30 a 40 minutos com as famílias.

“Continuamos alimentando a cultura do encontro. É uma semente que continua germinando já desde o período presencial, e que impacta na nossa formação docente, no desenvolvimento das crianças, e que promoveu um estreitamento na nossa relação”, avalia a professora Isabella. 

Durante esses encontros, a equipe ouve as famílias. Algumas estavam precisando de ajuda para realizar as propostas dos professores, outras contaram problemas com a alimentação dos filhos ou compartilharam a angústia de perceber as crianças amuadas. 

A partir disso, a escola convidou, para as reuniões seguintes, o professor de Educação Física para dar ideias de atividades físicas com as crianças, a cozinheira para dar dicas de preparo de alimentos diferenciados, e a professora de Arte para falar da importância do contato com a natureza – mesmo que dentro de casa, como aproveitar um cantinho com sol e as plantas do quintal. “Nosso trabalho é entender a particularidade de cada situação e construir proposições juntos”, conta a coordenadora Bruna. 

Planejando a reabertura da creche

Para planejar a reabertura da creche, que poderá, a partir de novembro, receber crianças de 4 a 6 anos, foi criado um comitê com a participação de toda a comunidade escolar. Até aqui, algumas ações já estão planejadas, como dividir as turmas em grupos de até oito crianças, aproveitar ao máximo a área externa da escola, e restringir a entrada de adultos na escola nos momentos de chegada e saída. A Fundação Antonio Antonieta Cintra Gordinho, que mantém a creche, também forneceu álcool gel e demarcou no chão os espaços de distanciamento. 

“Estamos organizando formações semanais com professores e funcionários para ouvi-los e dialogar. Depois, vamos conversar com as famílias. É cuidar dos adultos, para que eles cuidem das crianças. E quando chegar a hora de recebê-las, também vamos escutá-las sobre o que elas viveram durante a quarentena e como elas se sentem sobre voltar à creche”, explica Bruna.

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