ENTREVISTA

Ana Teresa Gavião: “Reggio Emilia encara a criança como uma possibilidade de futuro e esperança”

A especialista na abordagem reflete sobre como os pilares pedagógicos da cidade italiana se adaptam à realidade da Educação Brasileira e como reforçam a importância da democracia e da sustentabilidade

“A não presença na escola foi uma oportunidade para ressignificar a aprendizagem para além dos conteúdos”, analisa Ana Teresa. Foto: divulgação.

Ana Teresa Gavião foi a Reggio Emilia diversas vezes. Em suas visitas à cidade, acompanhou uma creche e estudou a relação entre famílias e escolas. Há mais de 15 anos, ela dedica sua vida acadêmica e profissional a pesquisar sobre a abordagem e a formar professores brasileiros para assumirem a tarefa de implementar essa concepção pedagógica por aqui.

Doutora em Educação e Psicóloga, ela atua como diretora de formação da Fundação Antonio Antonieta Cintra Gordinho, que mantém a Escola de Educação Infantil Almerinda Pereira Chaves, em Jundiaí (SP), inspirada na abordagem pedagógica italiana.

Em entrevista a NOVA ESCOLA, a especialista falou sobre os principais pilares da abordagem pedagógica, de que maneira ela faz sentido para o contexto brasileiro e os nossos desafios, e avaliou a educação no contexto remoto.

“A não presença na escola foi uma oportunidade para ressignificar o conceito de aprendizagem para além dos conteúdos. É um desafio, mas também uma brecha para ressignificar a aprendizagem e o currículo na Educação Infantil também para quando as atividades presenciais forem retomadas”, diz Ana Teresa. 

Confira os principais trechos da conversa:

NOVA ESCOLA: O que é e como funciona a abordagem Reggio Emilia?

ANA TERESA GAVIÃO: Reggio Emilia é uma cidade, no centro-norte da Itália, cuja comunidade, após o fim da Segunda Guerra Mundial, entendeu que era importante investir na primeira infância, encarando a criança como uma possibilidade de futuro, de esperança, de início de uma vida. 

Ela ficou reconhecida mundialmente pela sua política pública de Educação Infantil, especialmente quando Harvard, na década de 1990, fez uma publicação na revista da universidade afirmando que em Reggio tinha a melhor experiência de escola na etapa. São mais de 60 anos de trabalho, com princípios muito sólidos em seu projeto educativo, e que mesmo de forma histórica tenta se renovar e inovar no dia a dia, no trabalho com a comunidade e em grupo. 

Esses princípios são: as crianças protagonistas ativas; as cem linguagens da criança; a importância da escuta, da participação, da aprendizagem como processo subjetivo e no grupo, da pesquisa educativa, da documentação pedagógica, da organização e do ambiente como um terceiro educador; a formação continuada dos professores; a avaliação; e a projetação, um conceito criado por eles que é uma estratégia de planejar o processo educativo, mas mantendo-se aberto a mudanças e adaptações.

Essa abordagem pedagógica foi criada na Itália a partir de uma demanda local. De que maneira ela pôde fazer sentido também para o contexto brasileiro?

Os pensamentos de Loris Malaguzzi - principal pedagogo por trás da abordagem de Reggio Emilia - chegaram ao Brasil no final dos anos 1980, mas houve um aumento de interesse mais recentemente, a partir de 2010. Malaguzzi era um pesquisador e estudioso que fazia muitas conexões com outros pesquisadores e educadores, e é também por isso que ele ficou conhecido mundialmente. Em Reggio Emilia, inclusive, tem uma escola chamada Paulo Freire, fruto dos encontros e estudos dessa dupla.

E essa abordagem mantém-se contemporânea e pode fazer sentido para o Brasil por ter valores educativos muito sólidos, sobretudo pela preponderância da formação continuada, da reflexão e teorização dos professores sobre suas próprias práticas. Não tem professor que se forme e esteja preparado para dar aulas durante anos. Ele tem de refletir entre os pares, estudar, trocar experiências. 

Então, para as escolas inovarem, é preciso uma atitude de pesquisa dentro da própria escola, o que está muito interligado com a documentação e um olhar curioso sobre o processo educativo. Nesses processos de pesquisa e documentação, há a valorização do nosso contexto de trabalho, o olhar para o nosso potencial, de diversidade e fertilidade. Isso nos ajuda a manter a escola em transformação e a pensar outros pontos de vista. 

Como a abordagem de Reggio Emilia pode colaborar para o enfrentamento dos nossos desafios contemporâneos, como a sustentabilidade e a manutenção da democracia?

A meu ver, pelo aspecto socioemocional, o desenvolvimento integral, que também aparece na Base, está ligado à democracia e à sustentabilidade. Em Reggio há uma cultura forte de trabalho em pequenos grupos, ou seja, a aprendizagem do sujeito é subjetiva, mas acontece no grupo e com o grupo, mesmo desde bebês. E isso envolve muito a escuta do outro. E se você não concorda, tem de pensar argumentos para convencer o outro - é cognitivo, mas é também muito socioemocional. E se não der certo, eles são levados a pensar uma terceira ideia no grupo. Isso tem a ver com a democracia, porque não significa que todos tenham de concordar, mas o diálogo, a escuta e a negociação de ideias precisam estar presentes, e em Reggio eles vivenciam isso desde pequenos. 

Outro ponto visível da democracia é a participação da família e da comunidade, que foram as instâncias que deram origem às escolas da cidade italiana. As famílias entram nas unidades diariamente, porque têm horário amplo de entrada e saída, e têm o conselho de pais, que vai discutir diretrizes a acompanhar projetos. Lá em Reggio é comum ver pré-escolas ou creches em que o brinquedo do parque ou um mobiliário foram feitos pelos pais. Eles também promovem eventos, em que as famílias cozinham umas para as outras. É um senso de pertencimento e corresponsabilidade muito presente.  

Do ponto de vista da sustentabilidade, existe um local comunitário, cuidado por uma pedagoga, e que funciona como um mercado de refugos limpos de empresas, então tem tubos, cones, potes, vidrinhos. O professor faz uma “projetação” do espaço conforme a faixa etária e o interesse, então disponibiliza esses materiais, que são industrializados, mas trazem uma noção de sustentabilidade, de reutilização. Além disso, são muito potentes por permitirem criações e construções muito livres com esses objetos.

Como tem visto a educação no contexto remoto? E a volta às aulas presenciais?

Aqui na Fundação, vejo que nós tivemos uma grande ação em grupo e criativa para fazer funcionar uma escola de forma remota, um trabalho hercúleo dos professores, da gestão, também das famílias para se organizar com esse novo contexto que a pandemia nos colocou. 

E acho que a relação com as famílias foi um ponto forte desse período, um momento fértil para estabelecer boa comunicação, corresponsabilidade e diálogo. Agora temos a oportunidade de manter isso na volta presencial. E sei que essa não é sempre uma relação fácil, mas ela precisa ser construída, porque a criança é a mesma em casa ou na escola.

Outro desafio foi o de pensar o processo de aprendizagem de forma mais ampla, porque às vezes ligamos muito a aprendizagem a conteúdos e ficamos querendo cumpri-los, ainda que na melhor das intenções. Mas a não presença na escola pôde ser uma oportunidade para ressignificar o conceito de aprendizagem para além dos conteúdos. O que significa aprender? É realmente a lista de conteúdos ou viver a experiência e possibilitar a ação da criança? É um desafio, mas também uma brecha para ressignificar a aprendizagem e o currículo na Educação Infantil também para quando as atividades presenciais forem retomadas.

E para esse retorno presencial, estruturamos um comitê com representantes das famílias, dos professores e dos funcionários. Nós realizamos seis reuniões virtuais com esse grupo para pensar o retorno e estudar os protocolos do estado de São Paulo. Foi um trabalho coletivo e lento, ouvindo diferentes vozes. Precisamos escutar da faxineira à família, do gestor ao professor. Então foi rico observar os diferentes pontos de vista e construir caminhos em grupo.

Agora, estamos promovendo a formação técnica e o cuidado emocional de todos os adultos que vão trabalhar com as crianças. É cuidar de quem cuida, ouvir os anseios, os medos, formá-los para os protocolos sanitários. E em novembro, quando as escolas da Fundação Cintra Gordinho reabrirem, vamos realizar essa mesma formação juntamente com as crianças, cuidando dos aspectos técnicos e emocionais.

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