Para aprender sobre a prática

O que as crianças ganham ao estudar as histórias da família?

Partir das narrativas de pessoas próximas pode ser o primeiro passo para construção da noção de tempo

É a partir da história local que as crianças expandem as noções de tempo histórico. Ilustração: Renata Miwa/NOVA ESCOLA

Quando se é criança, ao olhar para os adultos em volta, é difícil para ela imaginar que houve um momento em que eles não eram aquelas pessoas grandes, que cuidam de você e que parecem saber de tudo. Compreender isso é um movimento complexo porque exige que o aluno construa uma noção de tempo, isto é, de que as coisas nem sempre foram assim (passado) e nem sempre serão assim (futuro). Só aos poucos os pequenos compreendem o conceito de temporalidade, e como ele se relaciona com a ideia de mudança.

Mas, o que é o tempo? Este é um dos conceitos mais abstratos da cultura humana. "Ele organiza a nossa vida. Quando uma criança nasce, já está em uma cultura de tempo que foi elaborada por muitas culturas [anteriores]", afirma Sonia Regina Miranda, professora do programa de pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e autora de livros como Sob o signo da memória e Cidade, memória e educação. Para a especialista, não podemos confundir o tempo com a ideia de cronologia. A coisa é um pouco mais complicada. 

Do ponto de vista escolar, a noção de passagem do tempo é desenvolvida desde a Educação Infantil. Com os menores, o foco é o tempo pessoal, da rotina. Essa noção começa a ser ampliada nos anos iniciais do Fundamental, como se o horizonte do aluno fosse se alargando para cada vez mais longe. "O estudo da história local ajuda a criança a sair do ‘eu’ para o ‘outro’. E o movimento seguinte é estudar as pessoas próximas do bairro e entender o ‘nós’, que é o espaço ampliado do outro", afirma Sherol dos Santos, doutoranda em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e especialista do Planos de Aula NOVA ESCOLA.

Para Everardo Paiva de Andrade, vice-coordenador do Grupo de Pesquisa Currículo, Docência & Cultura, da Faculdade de Educação da UFF, colocar a história das crianças (e das famílias) como a principal referência para outras aprendizagens facilita o exercício de abstração. "Iniciar o aprendizado histórico a partir do que é conhecido e tem um valor simbólico para o estudante proporciona sentido no processo de aprendizagem", complementa Vilma de Lurdes Barbosa, professora da pós-graduação em História na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e autora do livro História local: contribuições para pensar, fazer e ensinar.

Aliás, referenciar o tempo a partir de pessoas próximas de nós é algo muito natural no dia a dia. Quer um exemplo? Você certamente já ouviu expressões como “no meu tempo era diferente…”, “no tempo da sua bisavó era diferente…”.. "A família é a primeira mediação cultural que temos. Ela é a primeira que coloca para a criança a ideia de que algo já foi e não é mais, que no tempo da avó era diferente", diz Sonia.

E, na prática, qual é o papel da escola?

Se é verdade que esse trabalho fica naturalmente por conta da família, quando conta as próprias histórias, qual é o lugar da escola? A resposta é simples: potencializar essa experiência. "É possível fomentar o exercício da narrativa familiar propondo roteiros para isso", sugere Sonia.

Outro conceito fundamental que o trabalho com as histórias familiares ajuda a desenvolver é o de que toda temporalidade gera um registro. Vasculhar álbuns de fotografia e certidões de nascimento, por exemplo, são, no fim das contas, procedimentos clássicos de um historiador: a investigação de documentos e fontes primárias (nesta caixa, você encontra uma sugestão de atividade relacionada a isso).

A família e a história local

Além disso, o educador deve ter clareza do próximo passo: como sistematizar as histórias colhidas por cada aluno para pensar o coletivo.

Se você pensar bem, notará que o estudo das histórias das famílias pode ser ponto de partida para estudar qualquer contexto mais amplo. “A escola tem que nos aproximar cada vez mais dessa diversidade que compõe o mundo", aponta Sandra de Oliveira, coordenadora do programa de pós-graduação em Educação da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e pesquisadora de Ensino de História. "Eu sou uma pessoa diferente que mora em outro lugar. Dar essa dimensão constrói uma visão de diversidade, de respeito com o outro, e de compreensão do nosso lugar em relação ao outro", diz Sherol.

Isso não significa que estudar a história local é condição indispensável para entender a história mundial, mas que, a partir do que é próximo, é possível compreender as relações humanas, de modo que essa observação pode ser aplicada a contextos maiores. "Seria de grande importância que essas experiências em escala micro [local], fossem relacionado com perspectivas mais gerais, em escala macro [global]. No trânsito entre o micro e o macro, e vice-versa, está a riqueza do trabalho escolar com a história local", complementa Everardo.

Para Vilma, quando o aluno compreende sua história e é capaz de articulá-la às esferas nacionais e globais, percebe que é um sujeito da história, que, mesmo em isolamento social, ajuda a construí-la.

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