PARA APRENDER COM A PRÁTICA

Professora Raphaelle aposta em interação ao vivo e na parceria com as famílias para avaliar

Ao longo da quarentena, Raphaelle Vicentin adaptou as estratégias para acompanhar a aprendizagem da turma do 2º ano

Raphaelle decidiu fazer avaliação final e  espera complementar o portfólio que organizou para cada um dos alunos. Ilustração: Rafaela Pascotto/NOVA ESCOLA

Em 2020, Raphaelle Fernandes Vicentin experimentou maneiras diferentes de avaliar e acompanhar remotamente a aprendizagem da turma de 2º ano da EMEF Professor Gabriel Sylvestre Teixeira de Carvalho, em São Paulo. 

Primeiro, ela tentou usar ferramentas tecnológicas, como os aplicativos gratuitos Jamboard e Google Forms, nas quais preparava atividades para serem realizadas pelo aluno. Não funcionou. “As famílias não veem o erro como oportunidade de aprendizado. Então, elas acham que devem enviar tudo certinho”, conta a professora. 

Sem a possibilidade de verificar o que havia sido feito pela criança e o que era resultado da ajuda de um adulto, esses instrumentos perdem o caráter efetivo de avaliação.

Em setembro, Raphaelle optou por realizar uma avaliação durante as aulas ao vivo, que saltaram de uma para três vezes por semana ao longo do período de distanciamento. 

Ela dividiu a turma em pequenos grupos e propôs, em Língua Portuguesa, a escrita de listas, o reconto e a continuação de histórias. Elaborou também uma seleção de atividades de Matemática. “Agrupei as crianças conforme os conhecimentos delas, para que o tempo de realização fosse similar”, explica. 

Essas atividades foram feitas em vários dias, com o acompanhamento da professora, mas sem o apoio das famílias. 

Quando terminavam, Raphaelle pedia para os pais fotografarem o que a criança havia realizado e enviarem a imagem na hora, por WhatsApp, para a educadora.

O papel do erro na alfabetização

A mudança deu resultado. “Foi um choque para os pais”, conta. Muitos não entenderam o porquê de os alunos não estarem escrevendo tão bem quanto acreditavam que eles estavam. “Isso ocorreu, principalmente, com a atividade em que eu pedia para a criança terminar de escrever uma história, algo que coloca em jogo muita coisa”, relembra a professora.

A experiência levou Raphaelle a organizar uma reunião individual com cada família. “Fui explicando como estava o aprendizado da criança, o que precisava melhorar e o que fazia parte do processo”, reflete. 

Nesse momento, ela enfatizou o papel dos erros na aprendizagem, explicando como eles a ajudam a reorganizar o próprio trabalho. Explicou também a importância e a função da avaliação. “Quando o professor tem clareza do que quer avaliar, ele consegue orientar tanto as crianças quanto os responsáveis a fazer o que precisa ser feito, cumprindo os propósitos daquela atividade”, afirma.

Outro ponto tema dessa reunião foi a postura durante as aulas ao vivo. A conversa gerou combinados. Um dos pedidos foi para os alunos usarem fone de ouvido, o que reduz a interferência das pessoas presentes na casa naquele momento. Em caso de necessidade, ela pede à criança para chamar o adulto. “Deu certo e as interferências diminuíram.”

Avaliação final ao vivo

Segundo Regina Celestino dos Santos, coordenadora pedagógica da EMEF Professor Gabriel Sylvestre Teixeira de Carvalho, a Secretaria Municipal de Educação (SME-SP) elaborou uma avaliação diagnóstica, disponível em plataforma digital, para os alunos do 4º ao 9º ano. 

Para as turmas dos primeiros anos do fundamental, como a de Raphaelle, não há exigência de nota e a equipe gestora deixou a critério do professor realizar ou não uma avaliação final.

Raphaelle decidiu fazer. 

Para prepará-la, ela retomou o currículo de São Paulo, verificou quais habilidades de Língua Portuguesa e Matemática ela conseguiu trabalhar ao longo do ano e, dentre elas, elencou dez de cada uma dessas áreas de conhecimento. “Elaborei a avaliação pautada nessas habilidades específicas”, explica.

Novamente, a avaliação será feita durante a aula ao vivo. “Só faz sentido assim, porque posso acompanhar os alunos enquanto eles realizam”, afirma. 

A diferença é que, desta vez, os estudantes terão com eles a versão impressa com os enunciados das atividades. Para ter acesso a elas, são três opções: a professora envia o arquivo e os responsáveis imprimem; os pais solicitam a impressão, a escola prepara o material e eles vão retirar na instituição; ou um adulto pode copiar as questões no caderno. 

“Se nada disso funcionar, eu vou projetar a prova na tela e a criança vai escrever apenas as respostas no caderno”, conta a professora, que enviará às famílias um vídeo explicando como a avaliação ocorrerá.

Com as informações obtidas pela avaliação, Raphaelle espera complementar o portfólio que organizou para cada um dos alunos. 

O material, que reúne também as produções desenvolvidas ao longo do ano letivo e as anotações e reflexões feitas por ela, é ferramenta essencial para o planejamento de 2021, em que será necessário considerar o que não foi possível trabalhar em 2020.

Também como fechamento, Regina conta estar prevista uma reunião coletiva com os professores. “Vamos tentar fazer uma espécie de Conselho de Classe para reunir e registrar informações do que foi desenvolvido este ano e ter subsídios para o planejamento do próximo”, explica a coordenadora. “Afinal, nossos desafios não se encerrarão com a chegada das vacinas.”

Um deles será a busca ativa pelos alunos que não tiveram acesso às aulas on-line e à plataforma digital. “Como conquistá-los novamente e apoiar a recuperação deles?”, pergunta a coordenadora. 

E quem não participou da aula on-line?

Dos 21 alunos da turma de Raphaelle, dois só começaram a frequentar as aulas on-line em outubro. E um deles apenas no fim de novembro. São famílias com as quais a professora teve pouco contato ao longo do ano. “Não tem como eu avaliar quem não estava presente”, diz a educadora.

Em relação a esses, o levantamento da aprendizagem ficou restrito às devolutivas do que eles conseguiram fazer do material didático preparado pela equipe da prefeitura e enviado a todos os alunos no início da quarentena. Eles também receberam material complementar elaborado pela própria professora. “Acredito que eles serão avaliados efetivamente só quando o presencial voltar”, comenta Raphaelle.

A frustração por não ter sido possível acompanhar de perto todos os alunos da turma não impede Raphaelle de pensar nos pontos positivos da vivência de 2020. “É como se eu tivesse ingressado de novo na carreira. Foi um ano de muita experimentação e de aprendizado, como as tentativas de usar a tecnologia a favor da aprendizagem”, comenta a professora. “Mas, com tudo que aprendemos, se for necessário continuar o sistema remoto no próximo ano, tenho certeza de que será melhor do que este.”

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